habitar a paisagem   CLEIRI CARDOSO
outras naturezas, outras miragens   FLORA ASSUMPÇÃO
paisagens gráficas   ELAINE ARRUDA

 

 

Exposição que apresenta três individuais simultâneas onde as artistas mostram trabalhos que abordam a paisagem e as relações do homem com a natureza, assunto comum em seus percursos, além da prática da gravura combinada com outras linguagens, tais como vídeos, fotografias, objetos e performance. A exposição inclui trabalhos resultantes de suas pesquisas de mestrado no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

                                       

Multiplicação e Miopia 2

Marco Buti        artista e professor do Departamento de Artes plásticas da ECA-USP

 

                O geógrafo Denis Cosgrove propôs abordar a paisagem com os mesmos instrumentos críticos usados para a literatura e a arte. As três artistas reunidas nesta exposição têm a paisagem como referência, se não exclusiva, predominante. Mas não poderiam adotar a mesma posição do pesquisador: elas se manifestam através de imagens, linguagem que demanda meios materiais e técnicos, o fazer artístico, em suma. Impossibilidade de controle e consequente imprevisibilidade: estas características fundamentais da paisagem parecem ter se incorporado em boa parte das operações mobilizadas para concretizar os trabalhos aqui apresentados.

                Uma História da Arte voltada quase exclusivamente para os resultados de pintura, escultura e suas expansões contemporâneas, obras únicas ou tratadas como únicas, destinadas a espaços fixos, pouco ajuda a compreender a imagem como processo, resultado provisório de procedimentos nem sempre exclusivamente artísticos. Tampouco a noção pueril do fazer do artista como habilidade. O campo da multiplicação sempre se apoiou numa organização mais industrial, onde as técnicas devem funcionar, de maneira controlável. No entanto, as mesmas técnicas podem se tornar pouco previsíveis, em função de solicitações poéticas alheias ao uso padronizado. O que aqui encontramos nos bastidores das imagens são pensamentos em busca do meio e processo exatos, dentre os disponíveis e possíveis. Aquele que, espera-se, condensará a maior carga poética. A imagem, mesmo abstrata, só pode ser resultado de operações concretas.

                Esta questão tem sido descurada, na paisagem de uma arte contemporânea cada vez mais controlada, previsível e discursiva. Não se nota quando a peça apresentada, de acabamento impecável, é o único resultado aceito pelo artista após múltiplas tentativas frustradas, que talvez não poderá ser repetido. Como podem coexistir contemporaneamente meios digitais usados de forma pouco profissional, uma indústria em extinção como os estaleiros de Belém, mas com equipamentos adaptáveis para a impressão de estampas de grande formato, e a corrosão de matrizes pela água do mar. A exigência de usar precisamente a fotogravura, técnica aperfeiçoada no séc. XIX, e raramente praticada em nossos dias, para a realização final de imagens de fenômenos naturais compiladas na internet ou fotografadas frente aos fatos. 

                Cosgrove aponta a presença da história na paisagem. Na paisagem como forma de arte, grande parte dos significados está no confronto entre as ações humanas e os ciclos naturais. No meio artístico brasileiro, o envolvimento com todos os aspectos da realização artística, e não apenas com a concepção, provém de necessidades econômicas, sociais, geopolíticas, técnicas, que se impõem à imposição abstrata das ideias fora de lugar.

                Sem contar, é claro, a simples alegria do trabalho.

 

exposição 14/11/2014 a 07/02/2015

conversa com as artistas e os convidados Marco Buti e Claudio Mubarac - 07/02/2015 11h às 13h

Oficina Cultural Oswald de Andrade / São Paulo-SP