Perguntas para os artistas da Exposição Energias na Arte – Instituto Tomie Ohtake:

 

FLORA ASSUMPÇÃO

PROJETO SERPENTES DE PRATA, 2008-2010 

 

 

Qual é sua formação? Comente sua trajetória.

Sou formada em artes visuais no Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP, com especialização em gravura (2007). Iniciei minha produção em artes por meio do desenho e da pintura. Desde 2002 me interesso pela extensão da escala do desenho para o espaço arquitetônico e tenho experimentado diversos materiais, técnicas e linguagens. Mantenho reflexão e prática direcionadas à pesquisa em desenho e em ocupação de superfícies bidimensionais e, paralelamente, desenvolvo projetos de instalações para arquiteturas específicas e de instalações para espaços expositivos, explorando a relação do desenho com escalas arquitetônicas para a criação de ambientes ficcionais com a intenção de provocar experiências imersivas de caráter poético.

 

 

Como você situa o trabalho selecionado dentro da sua produção? Ele foi realizado especialmente para o edital Energias na Arte?

Meu trabalho (Projeto Serpentes de Prata, 2008/2010) é um desdobramento de diversas questões que eu já vinha trabalhando desde 2007 ou até mesmo antes. Eu me refiro não apenas à temática das serpentes e à atmosfera de ficção, mas também à escala do trabalho e a situação do embate da dimensão física do trabalho com o tamanho do corpo do espectador e a relação com a arquitetura.

 

 

Quais questões te levam a produzir? Quais questões o seu trabalho pode gerar?

Eu considero esta pergunta bem difícil de ser respondida com total precisão, porém, bem resumidamente, sei que parto da minha experiência de observação do mundo e de como eu me insiro nele.

Meu trabalho (como todo trabalho de arte) pode gerar muitas questões além daquela a qual eu me proponho quando crio o trabalho. E isso não é problema, desde que se possa perceber/verificar no trabalho também a intenção do artista além das questões suscitadas pela experiência individual do espectador.

Por exemplo, sei que meu trabalho pode soar bastante feminista, pois constantemente utilizo elementos da natureza como serpentes, nuvens, o mar, a neblina, o luar, a tempestade, o furacão etc. No entanto, me interessa muito mais do que um discurso feminista, o embate do humano com a natureza, que é algo que não se pode controlar, algo com vontade alheia a nós. Interessa-me a insegurança provocada pelo receio do inesperado que é a vontade e/ou a força alheia a nós, incontrolável por nós. Interessa-me o receio provocado pelo desconhecido. Minha referência constante a lendas e mitologias e o caráter algo sobrenatural e fantástico de minhas criaturas-máquinas evidenciam a possibilidade do perigo.                           

 

 

Como você insere a sua produção na contemporaneidade? Quais são as suas referências?

Acredito que minhas referências digam muito de como minha produção se insere na contemporaneidade. Acho que sou de uma vertente que carrega uma poética cheia de algo que eu entendo por lirismo. Eu sou pela poesia, pela metáfora, pela ficção, por menos literalidade. Acredito que, em arte, se pode dizer (e fazer) muito por vias indiretas, através do estímulo ao desenvolvimento cognitivo e da percepção para a formação do indivíduo e que Eu não quero que meu trabalho de arte seja uma ilustração/citação ou solução (ineficaz) de questões sócio/econômico/ambientais da atualidade e/ou do próprio meio da arte. O bom trabalho de arte tem o que for necessário disso tudo e um ‘algo mais’ que é único.

Minhas referências são visuais, não teóricas e expressas através da linguagem da fala. São minhas referências a obra de outros artistas com os quais eu ‘dialogo’ através de minha própria produção de arte.

Entre os vários artistas que me motivam, além de diversos arquitetos, estão: Regina Silveira, Ana Maria Tavares, Marco Buti, Olafur Eliasson, Carlos Fajardo, Iran do Espírito Santo, Anish Kapoor, Dan Graham, Liliana Porter, Christo Javacheff, Tony Cragg etc.

 

 

Se você fosse falar sobre seu trabalho para uma criança pequena, como o faria?

Acho que meu trabalho não precisa ser explicado a uma criança, pois ele tem grande estímulo visual e acho que é isso que é importante no meu trabalho e também o que torna a mediação de um adulto secundária para o meu trabalho despertar ou não o interesse em uma criança. Eu considero que em artes visuais o trabalho tem que se dar/ acontecer, no âmbito do que é visual. A palavra é acessória. O conhecimento e a percepção visuais são linguagem à parte da fala; independem desta. 

Claro que eu estou ciente de que as artes visuais mudaram e mudam ainda muito e que o público leigo não pôde e não pode acompanhar, de modo que a mediação da palavra se faz necessária. Desacreditar a necessidade da mediação da arte-educação, do curador ou do próprio artista, hoje, é quase utópico.

Mas eu estou dizendo que as artes visuais não são meras ilustrações para a linguagem falada, pois são uma linguagem por si próprias e não podem sempre ser traduzidas, fiel e precisamente, pela linguagem da falavai influenciá-lo em toda a atividade que ele realizar em sociedade. 

 

 

São Paulo, 09 de agosto de 2010.

Perguntas elaboradas pela Equipe de Educadores do Instituto Tomie Ohtake